sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Lesões músculo-esqueléticas na mulher atleta

Nos últimos 25 anos, observamos um aumento do número de mulheres praticantes de atividade física em diferentes níveis, desde o escolar até a atleta olímpica. Com isso, houve o aparecimento e diagnóstico de condições metabólicas e lesões específicas do gênero.
Além das diferenças anatômicas e fisiológicas, a modalidade desportiva também influencia na quantidade e no tipo de lesão.

Ombro
A instabilidade no ombro da mulher atleta pode ser devido a um evento traumático ou microtraumatismos de repetição. Essa segunda situação envolve principalmente atletas de modalidades com movimento de arremesso (natação estilo livre, beisebol e voleibol). A frouxidão li-gamentar secundária desses microtramatismos pode provocar deslocamentos anormais entre duas superfícies articulares (úmero e glenóide) e tornar-se sintomática. A instabilidade deve ser classificada de acordo com o tempo, grau, direção, etiologia e voluntariedade. Deve ser diferenciada de síndromes com hipermobilidade e instabilidades acrômio-claviculares.
As três formas mais comuns são: a instabilidade anterior traumática, a instabilidade multidirecional e a instabilidade posterior.
O tratamento varia desde exercícios para fortalecimento da musculatura escapular, correção da técnica do movimento até intervenções cirúrgicas. O resultado pode ser incerto quando comparado com os resultados em homens e depende da modalidade envolvida.

Joelho - Fêmoro-patelar
A Síndrome da dor fêmoro-patelar (SDFP) é a queixa mais comum na mulher atleta. É causada por fatores intrínsecos (tróclea rasa, patela alta, discrepância de membros, frouxidão ligamentar) e extrínsecos (treinamento excessivo, equipamentos inadequados, pisos duros, erros de técnica). Os três principais fatores são: imbalanço muscular do quadríceps femoral, mal alinhamento fêmoro-patelar e fêmoro-tibial (valgo) e sobrecarga articular. A principal queixa é a dor anterior no joelho, que deve ser diferenciado de outros diagnósticos (tendinopatias), e pode ser intensificada com o aumento da intensidade dos treinos. Além disso pode ocorrer crepitação, derrame articular, diminuição do arco de movimento e sensação de insegurança. Os sintomas são mais intensos nas mu-lheres e podem ser incapacitantes para algumas modalidades.
A instabilidade fêmoro-patelar (IFP) pode aparecer devido a um episódio traumático (lu-xação) ou devido a alterações intrínsecas que predispõem a instabilidade, como patela alta, displasia do vasto medial, tróclea rasa e imbalanço muscular. Isso pode ocasionar uma diminuição no desempenho devido a redução da atividade elétrica muscular, menor resistência muscular que aumenta a sobrecarga articular e aumento da concentração de proteoglicanos após o exercício.
O tratamento consiste na educação do gesto esportivo, monitoramento dos sintomas, uso de órteses, treinamento sensório-motor, reequilíbrio muscular, exercícios excêntricos e programas para melhorar a função muscular. A cirurgia é reservada para casos selecionados.

Joelho - Ligamento Cruzado Anterior (LCA)
A lesão do LCA é comum em modalidades que envolvem mudanças bruscas de direção, desace-leração e aterrissagens. As mulheres atletas apresentam uma incidência de lesão do LCA sem contato direto de 6 a 8 vezes superior à dos homens em determinadas modalidades como futebol e basquete. Dentre os principais fatores destacam-se: intercôndilo femoral estreito, frou-xidão ligamentar, resistência muscular inferior, LCA menor e alinhamento em valgo. Fatores hormonais podem contribuir para uma maior frouxidão em certas fases do ciclo menstrual. Alterações na estratégia de controle neuromuscular, padrões de movimento alterados e posição do corpo, principalmente durante a aterrissagem, contribuem para corroborar os dados acima. Outro fator é a fadiga muscular do quadríceps femoral e isquiotibiais em mulheres, que dimi-nuem a estabilização dinâmica e propriocepção do joelho. Medidas e treinamentos preventivos têm sido desenvolvidos para diminuir a incidência da lesão do LCA sem contato direto nas modalidades com maior risco.

Coluna
As lesões na coluna são frequentemente relacionadas a certas modalidades como dança e ginástica. Fatores de risco que aumentam a lordose lombar como a musculatura flexora do quadril e isquiotibiais encurtados, aumento da anteveresão femoral e aumento da largura bitrocanteriana po-
dem alterar a distribuição de forças na coluna lombar. Nas adolescentes podem ocorrer apofisites e escorregamentos nos movimentos com hiperextensão. Modalidades como natação e arremesso podem gerar escolioses funcionais devido à frouxidão ligamentar e a distribuição de forças assimétricas nas mulheres com maturidade esquelética, que em geral são tratados com observação e uso de órteses. Espondilólise como resultado de uma fratura por estresse da pars interarticular pode estar associada à tríade da mulher atleta e movimentos com extremos de flexão e extensão na coluna lombar. Velejadoras podem desenvolver lesões no disco intervertebral e levantadoras de peso podem desenvolver fraturas por compressão da coluna lombar.

Pernas e Pés
A incidência de algumas das patologias do pé e tornozelo das mulheres esportistas está relacionada com a tríade da mulher e com as ca-racterísticas anatômicas específicas femininas (menor massa muscular e óssea, tíbia mais estreita) que predispõem às fraturas de ossos do metatársico, tíbia e calcâneo em especial, e em maior incidência que nos homens quando praticando a mesma modalidade esportiva.
O uso de calçados femininos específicos também é considerado como fator predisponente a patologias do pé da mulher esportista, como o hálux valgo (joanete), deformidades dos pequenos dedos e calosidades, além da forte influência genética e da correlação com o próprio calçado da modalidade esportiva, como na modalidade de escalada indoor e dança clássica.
A reavaliação dos fatores predisponentes intrínsecos ou extrínsecos deve guiar a readequação de calçados, tratamentos locais ou em casos mais extremos a intervenção cirúrgica.
Fonte: Labirinto do Corpo

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